O Fingidor de Vitrine
Como vive a vaidade do cego, do surdo, do mudo?
O cego não vê a beleza de ninguém, senão do negro.
O surdo não ouve a mentira que lhe dizem, senão o sonido.
O mudo tem pouco que dizer dos outros, senão em soluços.
E num mundo onde só há ele e ele
A vaidade é uma planta sem terra,
Que não tem a quem mostrar as folhas.
Ah, mas os outros, os que vêem, os que ouvem, os que falam!
Esses correm atrás do título... não por amor do saber,
Mas pelo pedestal
Que se sobe para ver os outros pequenos!
A chave do automóvel!
A chave, com o seu emblema,
Pousada na mesa como quem não quer a coisa,
Onde os outros (eternos outros) a possam ver!
Ninguém compra o carro
Compra o brasão que o carro tem.
Em tempos, os relógios dormiam no bolso,
De ouro embora, e discretos como um segredo bem pago.
Hoje o pulso grita, exige, brada ao mundo
De onde venho e quanto valho!
Ó século de vitrines com gente lá dentro!
Gastamos, Helena, a vida a fazer tudo
Pelo olhar alheio que nos pesa,
E em troca colhemos sensações
Que escorrem, mornas, pelo ralo do banho
Mais frívolo e mais breve,
Num gozar infinito.
Sábio seria quem, sem testemunhas,
Soubesse ser o seu próprio assunto,
E não pedisse ao ouvido dos outros
O eco que lhe falta em si.
E talvez o cego, o surdo e o mudo
Sejam felizes, afinal.
Não porque lhes falte o mundo,
Mas porque, fechadas as portas de fora,
Só lhes resta a casa de dentro,
E é aí, nessa casa sem janelas para o aplauso,
Que mora, quieta, a verdadeira felicidade.
Eu, que tanto vi e tanto ouvi e tanto disse,
Confesso, no fim de todos os espelhos,
Quanto mais me mostrei, menos eu fui.
Venci na vida, e não sei de quê.
Feliz o que não é visto
Porque não precisa de ser,
Ou melhor
Parecer...
Aparecer...
Perecer!
CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 24/10/2026
Alterado em 24/10/2026