Quando o tempo vive por nós
Quando você dorme, talvez não durma
apenas se deixa escorregar numa penumbra
onde o corpo cessa e a mente ainda tateia, inquieta,
como se buscasse uma fresta por onde respirar.
Quando você come, mastiga o mundo
ou o mundo mastiga você.
O sabor é apenas um detalhe, um ponto suspenso no fluxo do que não cessa nunca:
a vida acontecendo, apesar de nós.
E quando você fala, é possível que seja o silêncio quem responde,
porque a palavra às vezes se esconde atrás da língua
e o que sai é só um esboço daquilo que verdadeiramente vibra.
Quando você trabalha, trabalha
ou se fragmenta,
cada gesto uma tentativa de se reconhecer no que faz
e falha, e tenta de novo, e falha.
Mas hoje,
hoje é como se tudo estivesse fora de seu próprio lugar:
come-se pensando no trabalho,
trabalha-se pensando na fome,
e dorme-se visitando a vigília como quem não quer ir embora.
Há qualquer coisa deslocada
um eixo torto,
uma engrenagem que range de leve dentro do peito.
O tempo, elástico,
vai sendo empurrado para o depois, para o adiante,
como se o agora fosse apenas um rascunho mal feito.
Você está aqui
mas seu espírito, impaciente, já se adianta,
querendo ser outro, querer estar noutro canto, noutro fôlego.
Talvez porque o aqui doa.
Talvez porque o aqui seja simples demais
e o simples às vezes assusta.
Ou talvez porque ninguém aprendeu a permanecer.
Ali,
esse ali impossível,
ali você pode ser tudo, exceto você.
Porque o ali é fantasia, promessa, fôlego futuro.
E o agora exige presença
e presença custa caro.
Talvez por isso inventaram o relógio:
para nos lembrar que existimos numa fenda estreita,
entre um segundo que morre e outro que nasce,
e que, se não estamos atentos,
é o tempo quem vive por nós.
CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 05/05/2026
Alterado em 05/08/2026