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Cristiano Wardil
É no cemitério da vida que a alma floresce
Textos
Quando o tempo vive por nós
Quando você dorme, talvez não durma
apenas se deixa escorregar  numa penumbra
onde o corpo cessa e a mente ainda tateia, inquieta,  
como se buscasse uma fresta por onde respirar.  

Quando você come, mastiga o mundo
ou o mundo mastiga você.
O sabor é apenas um detalhe, um ponto suspenso no fluxo do que não cessa nunca:
a vida acontecendo, apesar de nós.  

E quando você fala, é possível que seja o silêncio quem responde,  
porque a palavra às vezes se esconde atrás da língua  
e o que sai é só um esboço daquilo que verdadeiramente vibra.  

Quando você trabalha, trabalha
ou se fragmenta,  
cada gesto uma tentativa de se reconhecer no que faz  
e falha, e tenta de novo, e falha.  

Mas hoje,
hoje é como se tudo estivesse fora de seu próprio lugar:  
come-se pensando no trabalho,  
trabalha-se pensando na fome,  
e dorme-se visitando a vigília como quem não quer ir embora.  

Há qualquer coisa deslocada
um eixo torto,  
uma engrenagem que range de leve dentro do peito.  
O tempo, elástico,  
vai sendo empurrado para o depois, para o adiante,  
como se o agora fosse apenas um rascunho mal feito.  

Você está aqui
mas seu espírito, impaciente, já se adianta,  
querendo ser outro, querer estar noutro canto, noutro fôlego.  
Talvez porque o aqui doa.  
Talvez porque o aqui seja simples demais
e o simples às vezes assusta.  
Ou talvez porque ninguém aprendeu a permanecer.  

Ali,
esse ali impossível,
ali você pode ser tudo, exceto você.  
Porque o ali é fantasia, promessa, fôlego futuro.  
E o agora exige presença
e presença custa caro.  

Talvez por isso inventaram o relógio:  
para nos lembrar que existimos numa fenda estreita,  
entre um segundo que morre e outro que nasce,  
e que, se não estamos atentos,  
é o tempo quem vive por nós.
CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 05/05/2026
Alterado em 05/08/2026
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