Ela não sabe de si
Disseram‑te
ou talvez o mundo te disse por descuido
que não tens consciência de ti.
E eu, que sou muitos dentro de um só,
não vejo nisso falha tua,
é destino:
faltou‑te a sórdida claridade
não por descuido,
foi desamparo
daquela vida que, por peso, iluminou-te.
Contudo, há uma doçura que te antecede,
como se caminhasses cercada
por um perfume antigo de infância impossível.
Nos corredores dos educandários
onde a alma se arrasta entre lições de nada
és presença que poucos veem,
mas que se revela inteira
ao olhar de quem ainda possui olhos.
Os outros
esses alheios de alma curta
não sabem que perderam a sorte
de ter-te por consorte de caminhada.
Preferem abafar teu brilho,
como quem tapa o sol com a mão
por medo de reconhecer a própria sombra.
A ironia é esta:
teu modo doce de existir
fere o orgulho dos que vivem frios,
gente que se encolhe diante do afeto
como se carinho queimasse.
Tu não percebes que és cheia,
cheia até ao impreciso limite do ser,
como um oceano em véspera de tempestade.
E mesmo quando rebentas,
não afundas quem te toca;
antes, os guia ao prazer do nado,
como se o mundo fosse, por instantes, navegável.
És ternura grave,
ternura que não se deixa infantilizar.
Tens mel nos olhos, é certo,
mas franzes o cenho
como quem conhece a autoridade do silêncio,
quando o mundo exige mais do que deves dar.
E no fim
paradoxal e óbvio
não foste tu que faltaste ao mundo.
Foi o mundo que não teve a sorte,
em seus passos tortos,
de oferecer-te espaço
para seres inteira
quando seus caminhos ainda eram caminhos
e não este labirinto de quase‑vidas.
CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 22/04/2026
Alterado em 22/04/2026
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