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Cristiano Wardil
É no cemitério da vida que a alma floresce
Textos
Te amo sem sujeito
Te amo de um modo quase sem gramática,  
como quem respira antes de saber o nome do ar.  

Não me apraz a pontuação excessiva.
Ela interrompe-me a respiração,
e eu não quero que o amor respire por cortes.
Quero-o contínuo,
mesmo quando imperfeito.  

Há em mim uma recusa do sujeito:  
não porque eu o negue,  
mas porque ele me sobra,  
me atrapalha,  
me reduz.  

O verbo me basta.  
É nele que a vida se acende,  
é nele que tudo acontece  
sem precisar de explicação.  

Porque, afinal,  
uma oração pode perder quase tudo;  
menos o verbo,  
que é a pequena febre  
onde o sentido se cumpre.  

Assim, amo-te sem sujeito,
sem a vaidade de me nomear no que digo.
Seria quase um pleonasmo afirmar:
eu te amo.
O eu é demasiado evidente,
e o evidente cansa.

Por isso a boca, mais simples que a consciência,
prefere apenas dizer:

há amor, aqui.
CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 13/04/2026
Alterado em 05/08/2026
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