Não te amo como um instrumento
Não te tratarei com o desdém com que tratei o violão comprado,
posto num canto, entregue ao pó do quarto.
Algumas notas mal arrancadas, erros sucessivos,
tão pouco bastou para que eu o deixasse esquecido,
como se a desistência fosse uma forma de pudor.
Não me dei ao trabalho de tocá-lo,
e por isso não mereço o som que nele dorme,
como quem não merece o sonho que não ousa sonhar.
Ah, se o amor fosse um instrumento,
quantos Padres teriam menos sermões,
menos batinas para vestir,
e mais silêncios a oferecer no confessionário.
O violão é belo mesmo mudo:
uns novos, outros gastos,
uns afinados, outros nascidos para o desalinho,
mas todos respondem, submissos,
às mãos daqueles que realmente se entregam.
O amor é igual.
Há os novos e os já gastos de lembrança,
mas quando tocados em "duo"
produzem a melodia que poucos homens conhecem,
porque muitos ainda são apenas meninos.
Meninos dedilham violão, piano, saxofone,
mas não amam;
não por desdém,
mas pela cegueira própria de quem ainda não aprendeu
que o amor não é objeto de prateleira,
não ocupa um cômodo da casa,
não vive de memórias frágeis e acasos esparsos.
Isso, sim, deixemos aos instrumentos.
O amor dos Homens
que afinam, desafinam, erram e recomeçam,
esse completa a peça inteira,
ainda que uma corda se rompa no meio do gesto.
Porque na mão de um violonista,
de um Homem,
toca-se até o “Capricho Árabe” sem dó;
e na mão de um homem
ama-se com corda, sem corda,
em acordo ou desacordo,
e sempre lembrando que o amor,
como a música,
só se aprende tocando,
sem preocupar-se com a peça,
nem tampouco
com a plateia.
CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 21/03/2026
Alterado em 05/08/2026