O Lacre do Remédio
Ah, o lacre.
O barulho do lacre!
Que engenharia paradoxal do sentir é esta,
que revela o coração pela mais ínfima das vibrações?
Dizes-me que amas pela audição, e eu,
observo este prodígio insensato, este mecanismo oculto,
mais preciso que qualquer turbina de transatlântico.
Como pode um ser, naufragado em tão profunda dormência,
nesse abismo onde nem os sonhos se atrevem,
despertar-se ao simples romper do lacre do meu remédio?
Um sibilo tímido, um estalido quase inaudível,
um nada sonoro...
E, contudo, é captado com a precisão obsessiva de um cirurgião cego,
pelos teus ouvidos, esses instrumentos arcanos de uma vigília que me transcende.
Tua preocupação em ver-me são, sutil fidelidade,
é tão vasta que fura o tecido do sono,
rompe o véu espesso do esquecimento noturno.
Teus ouvidos, ah, teus ouvidos
esses radares do amor,
essas sentinelas de uma alma ainda em deriva,
preocupados com o meu coração,
ao ouvir o som da pílula, essa minúscula profecia,
romper a embalagem, anunciam, não a cura,
mas um "Eu te amo" mais denso que qualquer poesia.
Como se a tua alma, desprendida,
ainda em trânsito pelos cais do sonho, voltasse à terra
para certificar que o meu fármaco,
essa poção de sobrevivência, fora tomado.
Que estranho ritual de amor é este, que em ti se cumpre!
Buzinas?
Meras composições sem arranjo
e que tocam seu tímpano sem relevância.
Mas o romper do lacre do meu remédio
é o idioma último de um "Eu te amo" que me atinge,
violento e terno, no mais fundo dos meus nervos gastos.
Ainda sonolenta, sim,
mas já eterna na tua terrível e sublime audição do meu ser.
O que sou eu, senão a tua pílula,
a tua febre,
a tua salvação
e o teu abismo,
encapsulados num som?
No som do romper do lacre do meu remédio.
CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 21/03/2026
Alterado em 05/08/2026