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Cristiano Wardil
É no cemitério da vida que a alma floresce
Textos
A Anatomia da Ansiedade
Haverá, afinal, um coração?
Ou somos apenas um simulacro, com um vazio opaco?
Uma engrenagem que se esconde, calada, existindo apenas no silêncio denso.
E só se faz real quando a dor, bruta, se torna um grito sem nome.
Um golpe surdo.
Uma agonia que não se pode dizer.
Então, sim!

É o abismo que ele toca.
Lá, no fundo, onde antes supúnhamos a vida, revela-se:
não é órgão.
É uma ausência.
Uma ferida que não sangra,
Estancada pela nossa impotência em senti-lo.

Há dias, sim, em que a vida apenas respira, morna.
E essa carne fantasma, essa coisa que não sei bem o que é,
se esvai da lembrança.
Não pulsa.
Não existe em sua vã existência.
É um conceito apenas.
Uma hipótese vazia.
Esquecida.
Pouco a pouco.

Mas há os dias em que a máquina range.
E então, quebra.
E o coração, essa coisa que era nada, toma um tom.
PESADO!
A mente, antes perdida em seus próprios labirintos,
volta-se para si.
E cria, com um horror que é quase luz,
a imagem nítida de um redemoinho.
Uma sucção.
Uma fome que sorve a seiva, a energia mais íntima, o sumo da vida.
Como a água que desce, violenta, sem piedade,
pelo ralo voraz do tanque cheio.

Ali, nesse vácuo vertiginoso, tudo se desfaz.
Se precipita.
As impurezas do pensamento, sim.
Os resíduos da alma.
Os pequenos nadas que nos formam, esses.
Até as memórias mais finas, as que quase não existem.
Tudo é arrastado.
E se na pia há um filtro,
uma pequena grade retém o que não deve ir…

Penso na mente.
Essa senhora que se crê tudo.
Ela agirá assim?
Ou ela é o próprio abismo?
Nosso coração busca um fim.
Um repouso que é anulação.
Talvez no ralo invisível da razão.
Onde tudo é visto, sim.
Mas para se diluir.
Ou simplesmente...
perder-se.
CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 10/02/2026
Alterado em 05/08/2026
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