O compasso das estrelas
Quando o tempo se revela em desmedidas,
E a alma em seu abismo se debruça,
Sopeso a vida que em mim foi vivida
Àquela que jamais se fez e me ilude.
E se essa outra vida, sonhada e vã,
Findasse em fogos de artifício,
Ainda assim, na insolente gana do amanhã,
Clamaria pelos mesmos nadas, talvez.
Pois o que não se vive é o eterno anseio,
E o que se foi, só sombra do que não veio.
A existência, sem o jugo da balança,
Escoa-se num compasso que não marca,
Como um rio sem margens que avança,
Sem notar a passagem na comarca da própria duração.
Qual andarilho inerte,
Que busca um sentido que o não pertence,
E ignora que a ampulheta, em si, verte.
O pó dos dias, na muda prece.
Não sente o tempo que o espreita e o finda,
No palco oculto da alma que se encerra.
O relógio, com seus ponteiros impacientes,
com sua insistência em marcar o efêmero,
é uma ilusão que nos ensinaram a ter.
Um pacto social, uma convenção que nos aprisiona ao antes e ao depois,
ao nada.
Ele só existe porque alguém, um dia,
me soprou ao ouvido: "assim o é".
Pois a vida, quando se descola da medição,
quando se recusa à grade e à contagem,
ela flui.
Passa, sim, mas com um compasso oculto,
uma batida surda que o coração, distraído, não percebe
Mas eu, eu prefiro as estrelas.
A vastidão inerte, a indiferença brilhante que pulsa em seu próprio compasso.
Elas não medem, apenas são.
E nesse ser sem pressa, sem o tique-taque cruel de um ponteiro ansioso,
sem destino ou fim aparente,
mas que insistentemente me lembra do fim.
E nesse vasto silêncio estrelado,
talvez eu encontre um sentido que o relógio nunca soube contar.
O puro agora.
O abismo e a glória de um instante que não se mede,
apenas se vive.
CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 30/12/2025
Alterado em 05/08/2026