Inventário do Artifício
É tudo cenografia.
Um simulacro.
A beleza é um produto que se adquire.
E eu pergunto, neste sentir macabro:
Em que abismo esta farsa nos irá imergir?
Onde está o abalo sísmico da alma,
A desordem sagrada da barriga?
Quem foi o caçador que, com falsa calma,
Matou de tédio a sensação antiga?
Eu sou de um tempo em que o afeto era um ofício.
Dos presentes humildes, feitos à mão,
Das fotografias como um sacro suplício
Coladas num mapa do coração.
Onde estão as mulheres que ainda sonham
Com o véu, e a promessa, e o passo lento?
Onde estão as almas que ainda se envergonham
De não ter alma, mas só movimento?
Onde estão os homens?
Se é que alguma vez foram.
Restam os autômatos do desejo, a legião
Dos escravos da epiderme, que só exploram
O corpo alheio como uma estação.
Há quem lamente o amor, chamando-lhe inimigo,
Mas na montra das vidas, no diário digital,
Posam como se fossem um mendigo
A implorar a esmola de um olhar banal.
"Eu te amo" tornou-se um fonema gasto,
Uma contrassenha para franquear a porta.
Ainda bem que, neste mundo vasto,
A minh’alma com a tua se conforta.
E se o digo, é sem artifício ou pressa.
Digo "eu te amo", como um testamento,
Como quem funda uma última promessa.
Digo-o do modo antigo.
Porque o sinto.
CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 10/09/2025
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