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Cristiano Wardil
É no cemitério da vida que a alma floresce
Textos
O postulado do seu sorriso
Eu só me ergo do meu nada quotidiano
Para a hipótese de te ouvir dizer
Bom-dia, e nessa frase, nesse arcano,
O som ter a geometria de um prazer.

É um sorriso que a tua voz desenha,
Um postulado que me basta e prova
Que a vida pode ser mais que uma senha
Para um cofre vazio que se renova.

Depois de ti, as manhãs são um conceito,
Uma ordem lúcida no caos que eu era.
O café posto, como um rito feito,
A fruta, as flores que a estação me dera.

É uma natureza-morta, irrefutável,
Em cuja mesa nos sentamos, sós.
E a nossa conversa sobre o expectável
É a única metafísica que há em nós.

Saímos. E o mundo, espelho baço,
Devolve-me a imagem de um sorriso
Que não é meu de todo, mas o laço
Que me prende a ti, meu firme improviso.

É por ti, é para ti.
O meu sistema nervoso converge nesse fim.
Acordo para ouvir o teu fonema
Que me diz:
"Sei que tardei, mas eis-me em mim."

"Vim e fiquei." .
E essa frase resume
A paz que a longa espera não supunha.
És a verdade que, enfim, me consume,
A única certeza que a alma tinha.

E todos veem, sem que eu nada explique,
Este brilho que em mim já não se esconde.
A minha alegria é o dique
Que se rompeu na tua voz, que responde.

Não existe mais "eu" para que eu o gaste.
Apaga-se a equação que antes me definia.
És tu.
Apenas.
A única substância.
És tu.
CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 09/09/2025
Alterado em 09/09/2025
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