Crônicas de um Bombeiro - A divina tragédia e a pizza que não veio
Era fim de tarde de uma sexta-feira em Belo Horizonte, e o sol, com aquela modéstia peculiar dos fins de semana, começava a se recolher timidamente atrás dos arranha-céus do centro, levando consigo o calor do dia e deixando um rastro de cansaço. Eu, por minha vez, estava empoleirado num daqueles bancos de madeira centenários de quartel, que talvez tivessem sido confortáveis em 1950, mas que hoje ofereciam apenas uma dureza impiedosa e uma pátina de sujeira e resquícios de óleo, sabe-se lá de quê, ou de quem.
As costas doíam, um eco fiel de mais um plantão daqueles, onde a rotina se veste de surpresa. Minha farda, coitada, carregava a assinatura indelével da terra, do suor e daquele odor característico de quem lidou com o concreto da vida. Nada de novo no front, afinal.
Passei a mão no meu velho e surrado Samsung Galaxy J [alguma coisa], um veterano de muitas batalhas e quedas, e abri o aplicativo de entregas. Já salivava, confesso, com a imagem mental de uma pizza portuguesa. Uma daquelas generosas, com azeitona a dar com pau e orégano em profusão, um verdadeiro bálsamo para a alma e o estômago depois de um dia de lida. O primeiro pedaço, com aquela muçarela puxando... Mas o universo tem seus próprios planos, e o microfone, rouco e impessoal, decidiu que a pizza ficaria para outro capítulo. Tocava o alarme, aquele som agourento que tem o poder de congelar o tempo e paralisar corações.
— Atenção! Ocorrência para o Alfa 01, Salvamento 8523 e Resgate 1435. Colisão de um veículo de passeio com uma carreta. Quatro vítimas presas às ferragens, uma criança!
O relógio, que instantes antes parecia apenas um adorno na parede, transformou-se no juiz de uma corrida insana. Sessenta segundos para largar. E, no meio do burburinho da guarnição se pondo em movimento, um pensamento me atravessou como um raio:
"Criança, não!". Isso mexe com a gente de um jeito diferente, sabe?
Não sei onde enfiei o celular, se no bolso, se atirei para longe, se ele desmaterializou. Só sei que a adrenalina, essa velha conhecida, injetou-se em minhas veias com a força de um jato. Levantei do banco com um ímpeto que quase o arremessou para a estratosfera, e por um instante, juro, senti que a pobre colônia de cupins que ali habitava teve um susto existencial. Capacete, luvas, jaqueta, machado. Botas calçadas. Um olhar para o Sargento Bruno Cunha, que já se movia com a agilidade de um felino, e o grito de guerra:
— Vamos embora! É hora da ação!
Corri até a caminhonete S10 vermelha, essa viatura que é quase um membro da família, liguei o motor. Um motor que, sob minha batuta, cantou. Sim, cantou. Como um maestro regendo uma orquestra, fiz o pneu cantar no asfalto, os duzentos cavalos de força respondendo ao meu comando. Sirene no código 3. Trânsito, sempre o trânsito. Pelos retrovisores dos carros, éramos mais um vulto vermelho sumindo na paisagem urbana, quase um fantasma apressado.
O comboio de viaturas, deslizando como uma serpente de metal e luz, sempre causa um frisson na Avenida do Contorno. É o "tobogã" da cidade, e eu, naqueles instantes de frenesi, me pego pensando no que se passa na cabeça das pessoas que assistem àquele espetáculo de urgência. Uns devem pensar em tragédia, outros em heroísmo, e alguns, talvez, só na buzina que não ouviram. Eu, no meu quadrado, agitado e ruminando todas as possibilidades do cenário que nos esperava, olhava os carros à frente se abrindo como um mar para Moisés.
Teve uma senhora, no caminho, que demorou a nos dar passagem. Uma eternidade. A raiva subiu, confesso, e por um instante, imaginei-a sob os mais variados e coloridos impropérios. "Burra!", pensei. Mas aí, num flash, a mente de cronista tomou as rédeas. Talvez, quem sabe, ela estivesse com a cabeça no bolo que esquecera no forno, ou seu aparelho auditivo tivesse rendido a batalha daquele dia. Ou quem sabe ela simplesmente não fosse uma daquelas avós de comercial de margarina.
É, a vida é cheia de "ou não".
Dentro da viatura, o diálogo corria solto, mas cirúrgico. Tenente André Vinte, meu amigo e comandante, com aquela cicatriz notória na testa que contava histórias por si só, me olhou.
— Vou chegar lá, pegar a fita zebrada, isolar tudo, afastar os paisanos e ajudar o Salvamento a ligar os equipamentos, certo? perguntei, no ritmo ditado pela sirene.
Ele, líder nato que é, apenas balançou a cabeça. Estava no rádio, voz firme.
— Certo! — foi a resposta, concisa, definitiva.
Descendo a BR, o cheiro de freio quente invadia minhas narinas. Uma espécie de perfume da urgência. Não dava para ir devagar. Em cada curva, o pneu desalinhado, teimoso, cantava seu assobio, que para mim, naquele momento, era o assobio da morte se aproximando. Na última reta, antes de chegarmos ao epicentro, a imagem já se impunha: um tumulto, gritos que rasgavam o ar, olhares fixos na tragédia, congelados pelo medo.
O socorro chegara. E com a nossa chegada, todos os olhares, curiosos e desesperados, se voltaram para nós. Era como um palco de Hollywood, sim, mas sem holofotes, apenas os faróis amarelados dos carros velhos e a luz pulsante das viaturas iluminando a cena.
O caminhão era um Mercedes-Benz 1113 verde, antigo, daqueles "redondos" que sobem a serra a vinte por hora, carregando mais histórias que carga. No para-choque, a frase clássica, quase um haicai da estrada: "Casei-me com Maria, mas viajo com Mercedes". A carga? Detergente. Espalhado pelo chão, transformando a cena num grande escorregador fatal. E, por um instante, por uma fração de segundo, a memória traiçoeira me levou de volta à infância, ao quintal de um amigo. Eu, molhando o chão da garagem, despejando detergente para brincar de escorregar e bater num colchão velho e rasgado que servia de amortecedor. A mãe dele, coitada, nunca aprovou.
Ali, diante daquele emaranhado de ferragens retorcidas, vidros estilhaçados, carros capotados, o cheiro de sangue misturado ao calor dos motores e óleo, a dimensão da tragédia se impunha. Era uma cena que fazia a gente questionar a fé, mas, de algum modo, também a solidificava. Nunca olvidada, sempre presente.
Enquanto Vinte articulava e Bruno se embrenhava na montanha de sabão e metal, escutei. Um choro. E nesse choro, tudo parou. A terra, por um instante, fez silêncio. Um silêncio ensurdecedor, que só o som de uma criança querendo colo, querendo amor, querendo viver, pode preencher. As ferramentas começaram, então, sua sinfonia. Cortes, estalidos, o metal se rendendo à força. O suor salgado escorria, ardendo meus olhos, uma lembrança líquida da urgência. E então, mais um grito. Doído. Desesperado.
— Salva minha filha! Salva minha filha! Salva minha filha!
A frase se repetia, exaustiva, como um disco arranhado, perdido no caos. Não se via de onde vinha, pois ali, era noite, e o carro não era mais um carro, mas um nó górdio de ferro retorcido. Mas era o grito de um pai, preso também às ferragens, ferido, sangrando, chorando, agoniado. E, talvez, proferindo suas últimas palavras. Palavras de um altruísmo puro, de um amor genuíno. Divinas, sim.
Nenhuma lágrima escorreu dos meus olhos. Não ali. Não naquele instante. Minha mente, focada, só tinha um objetivo: atender àquela súplica sincera. O bombeiro entra em ação; o Cristiano, bom, o Cristiano ficara em casa, naquele banco duro do quartel.
Após cerca de quarenta e cinco minutos de técnica, de esforço, de suor, a criança foi retirada. Desafiando a lógica, as estatísticas, os prognósticos, estava viva. A visão embaçada pelo sangue que escorria da testa. Lembro-me, por um breve instante, do macacão de estampa floral rosa, mas o sangue diluía as cores, a forma. Carreguei-a em minhas mãos, levei-a até os médicos "com asas" – aqueles que chegam voando no Pégasus, o helicóptero da Polícia Militar. Ela partiu, levada pelos ares, para a vida.
Mas a cena não se encerrava ali. O clamor do pai, aquele disco arranhado, havia cessado. O silêncio dele agora agonizava. Ao redor, as pessoas murmuravam, comentando o que havia acontecido, e, inevitavelmente, como deveria ter sido feito, "assim ou assado". É bizarro, mas em toda ocorrência, os "telespectadores", com seu olhar de quem vê a tragédia como um filme, sempre têm uma forma melhor de fazer o nosso trabalho. Paciência.
Minha boca seca trincava os lábios. Aquele gosto metálico na garganta. A pizza? Ah, a pizza já era uma lembrança distante, um sonho de um passado recente e impossível. Depois de cortar o carro por completo, com a precisão de um escultor de aço, finalmente chegamos a ele. Um senhor de quarenta e poucos anos, barba cerrada, camisa azul, calça jeans. Eu o batizei mentalmente de Antônio. Usava um mocassim marrom, curiosamente, igualzinho ao do meu pai, Ricardo, que também tem barba. Olhos fechados, rosto sangrando, a boca levemente aberta. E eu, na minha cabeça, imaginei-o proferindo, em silêncio, suas últimas palavras:
— Obrigado por salvar minha filha, e obrigado por tentar me salvar!
Tarde demais?
Não posso responder. Apenas sei que voltamos para o quartel e, como um arquivo de computador, salvamos aquelas imagens, aquelas sensações, aquelas vidas, em uma pasta em nossa memória. O plantão segue. Farda suja de detergente e sangue. Prontos para o próximo suspiro, aguardando o próximo alarme.
Peguei o celular para, finalmente, pedir aquela pizza desejada. Mas o horário já era avançado, a cidade já dormia sua noite de sexta. Tudo fechado. Sobrou, como prêmio de consolação, apenas o sanduíche da esquina.
O que fazer? Vamos comer.
CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 05/09/2025
Alterado em 05/09/2025