A mochila da filha
De um portal sem nome, absurdo rito,
Emerge a cena, já destino antigo.
Ele, para o fado; ela, para o mito
Que a escola tece em seu doce abrigo.
E a mochila, ínfimo universo rosa,
Passa de um ombro frágil ao castigo
De um dorso que já verga sob a prosa
Da vida que lhe é um dever e um inimigo.
Ah, sobre estes ombros que a caliça esfolia
Não vai só a mochila, esse leve fardo.
Vai o peso de uma outra geografia,
De um mapa de futuros por ele guardado.
Ele, que é tantos, finge ser só um:
O pai.
E nesta simples travessia,
Carrega o seu sentir, que é de nenhum,
E o sonho dela, que é toda a luz do dia.
Ela, na sua essência de ser só ela,
Desconhece o abismo que no pai traga.
Pula, sorri.
Sua alma é uma aquarela
Sobre o cinza do tédio em que ele naufraga.
Para ela, o pai.
O gesto.
A mão segura.
Não sente o outro peso, o peso vago
De uma vida que a si mesma não se atura
E que só nela encontra algum afago.
E à porta do liceu, esse pórtico
De um mundo que talvez nunca será dele,
Dá-lhe o beijo, o ponto final, acróstico
De tudo o que por ela, nele morreu.
E ela fica, e ele parte.
E na distância,
É de novo a soma do que lhe doeu.
Um homem, a mochila, e a circunstância.
CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 05/09/2025
Alterado em 05/09/2025