× Capa Meu Diário Textos Áudios Fotos Perfil Livros à Venda Contato
Cristiano Wardil
É no cemitério da vida que a alma floresce
Textos
Prontuário Gramatical
Declaro minha sina: a tua sintaxe.
Foram teus pontos, esses freios de arrumação,
que me detiveram.
Eu, que sempre corri,
tropecei numa vírgula tua
e ali fiquei, observando-te nua.
Era como se a maquinaria do teu peito
fosse desmontada, peça por peça,
em cada frase.

Teus adjetivos, de uma precisão cirúrgica,
pegam o sentimento mais comum
e o fixam na lâmina, para estudo.
Conjugas a ternura como um verbo irregular
que, de repente, faz todo o sentido.

Eu reaprendi o ofício de respirar contigo.
Não pelos suspiros, esses clichês da alma,
mas por cronometrar o intervalo exato
entre o fim de uma palavra e o começo de outra.

Confesso o espanto: julguei ser protocolo,
distância, um excesso de gramática.
Mas era só o teu jeito de ser mansa.

A vantagem de se render aos verbos
é que são fatos brutos.
Não negociam.
A exclamação é um telegrama urgente
anunciando o incêndio no porão.
A reticência, um abismo onde me atiro.

E quando me chamas, não importa como,
se com artigo, pronome ou um nome gasto,
todo o meu ruído interno se cala.
O meu verbo mais áspero se torna obsoleto,
uma palavra estrangeira que esqueci.

Se isto não se chama amor,
que os filólogos se reúnam, em congresso.
E que se anexe este meu caso
ao verbete, como nota de rodapé
ou uma estranha exceção à regra.
CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 28/08/2025
Alterado em 28/08/2025
Copyright © 2025. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Comentários