A fornalha do amor
Por que novamente esse aperto no peito,
como se minha máquina ansiosa
tivesse defeito?
Pensei que amar fosse ser construtor,
que eu pudesse ser pouco,
e que de pouco em pouco
migalhas fermentariam o amor.
Será o amor uma massa?
Que, de tanto amassada,
tomasse forma no mais alto calor?
Eu, que não domino a fornalha...
Sou só tempero:
às vezes salgado,
às vezes sem graça.
Mas dou gosto do meu jeito.
Às vezes, sem jeito.
Já estive em tantos fornos,
misturei tantos temperos,
e há momentos em que sou amargo.
Já me consumi em tantos fogos,
me diluí em vinhos caros.
Fui banquete servido a seco
e o silêncio covarde na ponta da mesa.
Já banquei o sábio,
por medo, calado.
Por vezes, com sede,
vencido, fui coalho.
Já fingi ser confeiteiro,
sem nunca ter vendido sequer um doce.
O único mel que já produzi,
nem as abelhas teriam apreço.
Qual a receita do amor?
Pergunto-lhe, oh confeiteiro!
Me ensine a dosar o tempero,
me ensine a medida do amor.
Sigo a receita impressa nos manuais do afeto:
meça a paciência, peneire a boa intenção,
mas a mistura sempre talha em minhas mãos.
Falta-me a temperatura, o jeito, a alma do forno.
CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 21/08/2025
Alterado em 21/08/2025
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