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Cristiano Wardil
É no cemitério da vida que a alma floresce
Textos
Amor rarefeito
Há um corpo que me aguarda.
Um outro.
Não o teu.
E eu me dou.
Mas o amar... essa palavra-chave, esse labirinto...
Eu a amo.
Sim!
Com a pele.
Com o costume talvez.
Mas não...
não com aquela vertigem tua.
Não com o risco da tua borda.
Não como a ti.

Tu.
Lá.
Com ele.
O outro.
O sentir dele não sabe a tua fenda?
A tua rachadura primordial.
Aquela que só a mim, talvez, se revelaria.
Ele não te ama como eu.
Como eu te amaria.
E isso... é uma verdade escura que me habita.
Um saber que não se comunica.

Quisera que o destino não fosse essa teia intransponível.
Que o avesso se fizesse direito.
Mas o querer...
Ah, o querer é um bicho estranho, inútil às vezes.

Houve um tempo.
Um instante.
Abriu-se um espaço.
Com o meu tempero.
O meu modo de ser.
E eu... eu não acendi.
Não houve fogo.
Não houve o arder
Apenas a névoa de uma possibilidade.
Tinha medo, talvez, de me queimar.
Ou de te queimar.
Ou de que a chama revelasse o vazio por trás.

Mas gosto de lembrar.
A memória é um bálsamo.
E um espinho.
Que em algum momento.
Por um simples instante.
Eu tivesse sido...
Não amado.
Não escolhido.
Mas...
Cogitado.
Um pensamento teu que se desfez.
Um eco em tua paisagem íntima.
E talvez...
Ah, talvez sim.
Tenha sido.
Só não contaram pra ti.
O mundo é cheio de segredos que se guardam no ar rarefeito.
E o amor, talvez, seja um deles.
Uma não-revelação.







CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 19/08/2025
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