A consulta e o CRM
Havia uma moça e seu ofício: médica.
Metade por dom, ou coisa que o valha,
metade por teima, para existir contra o pai.
O pai, esse, sim, era Doutor.
Com maiúscula.
O pai se preocupava com o mundo em papéis,
boletos, notas fiscais, o débito e o crédito da vida.
Ela não.
O mundo dela era outro.
Ou o mesmo,
Visto de outro guichê.
A consulta: um rito breve, funcional.
A queixa, o exame, a receita impressa.
Nomes não importavam.
Nomes são burocracias.
O que vale é o carimbo
Com o CRM,
a assinatura que encerra o diálogo
e despacha o corpo para a farmácia ao lado.
O fim de semana, outro rito.
A festa era um dever, o vestido um uniforme.
Sorriso corrigido por lentes, a foto por filtros.
A vida, essa mesma, paga à vista.
O pai pagou a faculdade.
Ela, a cirurgia plástica.
As dívidas do corpo, sempre quitadas.
Certa vez, um homem
Chamava-se João.
Trazia seus boletos no rosto cansado,
mas não era doutor, era só um vivente.
Um João no mundo, esperando na fila.
Ela não perguntou.
Para quê?
Prescreveu tão logo sua alforria:
Donezepilina, Galantamina.
No sábado seguinte, a viagem (paga à vista).
O hotel (pago à vista).
O bar.
Um drink para aplacar o nada:
- Magie Noir, disse a doutora.
O garçom, que não era doutor, era só um homem,
Curvou-se e perguntou com a voz de outro tempo:
- Lembra-se de mim, doutora?
Ela olhou o copo, o balcão, o teto.
O rosto dele era uma folha
Em branco, só com o carimbo.
Respondeu ao seu drink, não ao homem.
— Sem gelo, por favor.
CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 13/08/2025