Vendo meu tempo
Café e cana, numa humilde choupana.
O teto é de palha; a tramela, de madeira.
O arado em sangue a fome espanta,
o mugido é de Estrela, que está prenha na capoeira.
Fumaça de lenha e quitanda na mesa,
poeira para cima: é Gasparina em canto.
Seu José, no curral, tramando proezas...
Mas que vida banal, esta vida no campo!
O cedo na roça nunca é atrasado,
a marmita é bem cheia: tem ternura e pimenta.
A moringa ao colo, o fumo enrolado.
Já é hora de apartar o gado que sustenta.
Não há, nesta terra, um ponteiro ligeiro,
mas, se dá a hora da missa, Gasparina se apressa.
Já seu José — de pouca fé —, este, sim, é copeiro.
Será possível, nesta vida, algo que não me interesse?
Tem cerca cortada no campo distante,
tem silo vazio que preciso aprumar,
mas também tem gado fugido na roça de seu João...
Vem, Curió, meu burro infante! Vamos apanhar Bianca antes que ela vire janta.
De noite, tem onça escondida na palha.
Na sela, tenho espingarda pronta para gritar.
Curió pode ser burro, mas seu sangue não talha.
Gasparina, preocupada, já preparou meu jantar.
Aprendi com meu velho como fazer boa cana:
tonel de carvalho e boa prosa — é claro, sob o pé de limeira.
Esqueça este gole, deixe que o tempo fermente a aguardente.
Colha uns ovos, faça um tropeiro, chame seu José e façam um festeiro.
A vida na roça é vida de prosa, vida de roda.
Tem tempo para tudo, e tudo me é agradável.
Tem ovo cozido e galopé na panela,
tem vinho barato e sanfona em canto,
tem também suor e choro de fome.
Mas tem pé de banana que enche a pança,
tem botina rasgada e unha encravada...
E tem dona Isaura, que traz chá e cura o peito inchado.
Ah! Como é boa esta vida de gado!
CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 08/08/2025
Alterado em 08/08/2025