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Cristiano Wardil
É no cemitério da vida que a alma floresce
Textos
O mecanismo da angústia
Este meu coração, cavalo sem dono,
Sente o ímpeto, o cio, o abandono.
Vê a vida, essa égua ao longe, um aceno,
Mas a rédea do pensar
Nega-me o feno
E o destino é outro, escrito na mão
Que me força a viver na contramão.

É como se o corpo
Viscoso
Tentasse andar sobre a areia
E sair sem um único grão preso

Sou um relógio de madeira, absurdo,
Onde um pássaro mecânico e surdo
Grita a sentença das horas, sem pausa,
Numa agonia sem efeito ou causa.
Um tique-taque no claustro do peito,
De um tempo que já nasce imperfeito.

E a quem diga que há remédio
E talvez o tenha
Mas sem a bula
Sem o farmacêutico

Há dias em que o peito se cala
Sufocado pela fumaça
Inala o aconchego
E devolvo ao mundo o meu desassossego.

E ao fim, que sou?
Um sonho sonhado
Noutro sonho, um eco duplicado.

Um labirinto de espelhos
Não há mapa, não há fio, não há roteiro,
Só a lúcida vertigem de estar inteiro,
Sendo metade.








CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 04/08/2025
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