Estou morto pois desejo
Para que o desejo viva, e em nós perdure,
É mister que o seu fim seja sempre ausência.
Não é a coisa que, em febre, se anseia,
Mas o sonhar a coisa, a sua ideia.
É a teia que a alma, astuta, urde,
Para que o querer não tenha fim nem cura.
Manipular a ânsia, a sua essência nua,
E fazê-la infinita sob a mesma lua.
Ter nas mãos, por fim, a coisa tida,
É sentir-lhe o peso, a forma fastidiosa,
É afogá-la no pó de cada dia,
É matar na posse a ânsia que era a vida.
Por isso, zela pelo que em ti clama,
Não porque o terás — ínfima certeza —
Mas porque, ao tê-lo, apaga-se a chama
E em teu peito morre essa nobreza.
Nisto jaz o absurdo que me veste,
E, talvez, o gérmen de um contentamento.
Sofro por querer, num mal que me agreste,
E sofro ao ter, por perder o tormento.
Sofremos, antes, por não o possuir;
Sofremos, depois, por já não o sentir
Como desejo, mas como presença nua.
Feliz, então, quem na distância sonha,
E feliz quem, de tudo já liberto,
Não põe na vida a ânsia que a tristonha
Realidade torna um céu deserto.
CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 01/08/2025