No abismo do próprio fardo
A dor que sangra, não te exime
De vomitar teu fel sobre quem,
Já moribundo, cambaleia.
O mundo, vasto palco de miséria sem fim,
Jaz infestado de corações rompidos, de existências baldias.
E em cada uma, o ímpeto voraz de sorver, em vão,
O bálsamo fugaz das chagas alheias, sem findar as suas.
Caminhar com o pé quebrado, em passos de agonia surda,
É a dignidade espectral do que apenas se arrasta,
Na crua certeza de que a chaga é tua, só tua,
Um fardo intrínseco, inalienável, que a ninguém mais importa.
O outro, sim, o irmão que se arrasta, vergado,
Sob o mesmo flagelo implacável do destino,
Com o peito já coalhado de martírios infindos,
Tem o direito sacro de sofrer calado, em seu ermo,
Sem que o teu abismo macule o meu.
Ah, é peso demasiado para tanta criatura já prostrada,
Para a multidão anônima de almas aviltadas.
E quem se atreve a lançar seu próprio opróbrio ao próximo,
Desfaz o frágil equilíbrio da existência, que então rui,
E esmaga o ser que, inerte, apenas respira, sem viver.
Assim se tece a vida, trama sombria e fatalista,
Um pendular macabro de pesos que jamais se unem,
Uma paisagem desolada de existências esmaecidas,
De almas perdidas na névoa densa do desamparo.
E tudo só então adquire um sentido funesto,
Pois a gélida verdade, sussurrando aos ouvidos vãos,
Diz que no recesso escuro da alma, ou da escurecida despensa,
Jaz o éter que tudo cala, a doce névoa do esquecimento,
A derradeira paz que silencia o pêndulo insano e desmedido
Deste viver,
que afinal...
É só morrer.
CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 16/07/2025
Alterado em 16/07/2025